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Lembranças e saudades de alguém especial

O mês de junho desde malfadado ano de 2019 começou mais triste. No último dia 2, domingo, por volta das 13:00 horas, tive a infelicidade de, ao verificar as mensagens de whatssap, me deparar com a triste notícia do falecimento do Milton Franco, nosso querido Milton da emergência ambiental. E que me perdoem por tratar…
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O mês de junho desde malfadado ano

de 2019 começou mais triste. No último dia 2, domingo, por volta das 13:00

horas, tive a infelicidade de, ao verificar as mensagens de whatssap, me

deparar com a triste notícia do falecimento do Milton Franco, nosso querido

Milton da emergência ambiental.

E que me perdoem por tratar esse

texto na primeira pessoa, mas em se tratando do Milton, preferi fazer assim: de

forma pessoal, singular, próxima.

Pra quem não conhece, Milton

Olavo de Paiva Franco ingressou no Sisema em 2006, no Instituto Mineiro de

Gestão das Águas, o Igam. Durante a remodelagem institucional de 2011, migrou

pra equipe de Emergência Ambiental da Semad, unidade onde trilhou um trabalho de

referência e identidade até sua licença médica em abril/2019, de onde não mais

retornaria.

Conheci o Milton em 2013, durante

minha passagem pela fiscalização ambiental. De linguagem fácil, não era difícil

diferi-lo pelo sorriso aberto e pela disponibilidade: “Quem pode fazer plantão da emergência no natal? Quem tem

disponibilidade pro plantão no carnaval? Quem pode ficar com os telefones de

plantão no ano novo?” A resposta vinha rápida e sem o menor êxito: “eu posso!” , dizia ele.

Talvez isso seja comum a muitos

dos servidores que assim como o Milton, tem pelo Sisema uma identidade e apreço

para além da relação trabalhista e institucional. Mas neste caso, falávamos de

um senhor de quase 70 (setenta) anos, que cuidava carinhosamente de sua esposa,

já debilitada por conta de um câncer terminal.

Milton coordenou o NEA – Núcleo

de Emergência Ambiental por alguns anos. Foi neste período que talvez, tenha

vivido o seu ápice profissional, junto ao Pedro. Formou-se a dupla dinâmica.

Pedro é um garoto jovem, cara de menino, desses talentos que pra nossa sorte,

aparecem no Sisema pelo ingresso no concurso público. Milton era químico,

didático. Ex-professor da Universidade Federal de Minas Gerais se posicionava

com clareza e impunha posição e segurança. Foi a união da experiência com a novidade.

Fico imaginando o que pensavam empreendedores e transportadores de produtos

perigosos, diante da presença daquele Senhor, acompanhado do menino.

Durante as situações de maior

fragilidade do Sisema, em face dos últimos desastres envolvendo rupturas de

barragens, Milton foi quem prestou o primeiro atendimento em todos: Barragem de

Miraí em 2007, Mineração Herculano em 2014, Samarco Mineração em 2015.

Acompanhou o pós-acidente no caso do rompimento da barragem da Mineração Rio

Pomba, em Cataguases e tinha todas as informações na ponta da língua. Já

debilitado, não prestou os primeiros atendimentos ao desastre de Brumadinho

neste ano, fazendo com que a equipe da emergência ambiental tivesse que criar

um rol de desculpas para contê-lo.

E nos vários eventos de vistorias

e fiscalizações do desastre da Samarco Mineração em 2015, eu vi o Milton começando

a passar o bastão pro Pedro: O menino começou a se posicionar firmemente e

assumir as ocorrências… E o Milton? Calado. Com um sorriso escondido de

orgulho do Pedro… Implicante, sempre dizia que o novato tinha deixado de

fazer isso ou aquilo. Bruno Malta me lembrou de uma de suas frases

emblemáticas: “Esse Pedro é uma anta!”

E na dúvida de inserir ou não essa frase no texto, sob o pretexto de ser mal

interpretada, decidi compartilhar por dois motivos: o primeiro, é que o próprio

Pedro estava para lá de acostumado com a frase e morria de rir; em segundo,

porque o Pedro poderia ser tudo… menos uma anta! Coisas do Milton… Depois

de alguns anos, o Pedro deixou o Sisema e foi viver no Canadá. Mas essa já é

outra história…

Milton mantinha uma relação de

amizade e respeito com todos os colegas de equipe da emergência ambiental, em

especial, com a Wanderlene, sua Diretora e amiga. Wanderlene compartilhou

conosco o caso da ocorrência do segundo rompimento do duto da Anglo American,

em março de 2018, numa quinta-feira santa. Naquela ocasião, José Alves era o

plantonista e estava atendendo a um acidente no Triângulo Mineiro. Ninguém mais

da equipe tinha disponibilidade para o atendimento, quem não estava de plantão

tinha se planejado pra passar o feriado com a família, o que era totalmente

justo, em razão das rotinas de plantão. O Milton estava com alguma dificuldade

de locomoção por um probleminha no quadril, mas Wanderlene não teve dúvidas,

ligou pra ele: “Você pode ir comigo

atender ao rompimento do duto da Anglo American?” A resposta do Milton não

poderia ser outra: “Claro. A que horas a

gente vai?” Companheiro de todas as horas, costumava amenizar os problemas.

Nos últimos cinco anos de vida,

Milton viveu sem a esposa, falecida desde 2014. Já viúvo, lembro do dia em que

me procurou, perguntando se eu conhecia um determinado servidor que tinha um

sobrenome diferente: “Conheço, Milton.

Por que?” “Tive uma namorada na adolescência

com esse sobrenome” , ele disse. Apurada a história e pelas coincidências da

vida, a tal namorada era tia desse mesmo servidor. E ainda estava solteira… O

Milton ficou animado, marcou encontro e depois de alguns dias, me disse que a

ocasião não rendeu frutos, que preferia guardar as lembranças dos velhos tempos…

Muitos vão lembrar de uma reunião

recente do Sindsema, nos corredores da Cidade Administrativa, oportunidade em

que discutíamos a posição dos servidores frente às graves críticas que o órgão

ambiental recebia diante das circunstâncias do desastre de Brumadinho… Milton

pediu a palavra e defendeu a posição institucional pela defesa dos servidores e

do órgão ambiental. Depois, arrancou gargalhadas dos presentes ao imitar o

casal de apresentadores do Jornal da manhã da TV globo e ao criticar os

pronunciamentos de Ricardo Boechat, a quem ele disse ter sido levado pelo vento

naquela semana…

Certamente, Milton não imaginaria

que os ventos também o levariam nesse fatídico ano de 2019. A vivacidade e o

otimismo eram as suas marcas. Durante as últimas semanas, já internado no

hospital, sua filha e colega de trabalho Karla Brandão, que carrega a

inteligência e a genética do pai, nos relatou que ele reclamou de não estar

presente nos atendimentos de Gongo Soco em Barão de Cocais e nas blitz

educativas realizadas pela emergência ambiental. Disse que era um absurdo,

diante de tanto “movimento”, ele estar parado no hospital…

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Tive notícias das últimas peripércias

do Milton, antes da licença médica, em atendimentos a emergências de madrugada,

acompanhado do Renato Brandão, da Feam, de quem o Milton era fã. Toda vez que

tinha notícias de que o Renato o acompanharia, o Milton ficava mais animado e

diz a Karla, não se importava em sair de casa meia noite. Pra ele, a vida

pessoal e a emergência se confundiam de tal forma, que uma coisa não se

distinguia da outra. Era figura carimbada no refeitório da Cidade

Administrativa, durante os almoços, onde fazia companhia para seu amigo e

companheiro Antônio Carlos, a quem o Milton chamava carinhosamente de “Pardal”.

O Milton é uma dessas pessoas

que, quando perdemos, nos faz refletir e dimensionar o quão estúpida e cruel é

a morte. Ele completaria 70 (setenta) anos de vida no dia 10 de junho, ocasião

em que já havíamos planejado uma visita e uma comemoração.

Não deu tempo. E essas breves

lembranças, com mistura de muita saudade se deve ao fato de que, em que pese a

tristeza de sua perda, ficará o exemplo de alguém que foi inspiração pra mim e

tenho certeza, pra muita gente que lembrar dele através desse texto: era leve,

quando a vida lhe trazia dureza; proativo, diante das maiores dificuldades;

seguro, frente às maiores incertezas; engraçado, quando tudo induzia à

tristeza. Solícito, sempre!

Milton deixa quatro lindas

filhas: Maria Regina, Maria Thereza, Karla e Mariana. Pra nossa sorte, temos a chance

e a honra de conviver com a Karla na Superintendência de Projetos Prioritários

e relembrar um pouquinho das travessuras do pai.

Minhas últimas lembranças do

Milton foram na missa de sétimo dia. Firmei na oração, concentrei e senti uma

voz dizendo: “Oh, meu Deus! O telefone do

plantão está tocando, gente, pára pra atender a emergência!”

Daniela Diniz Faria

*Essa turma de amigos abaixo me

apoiou com informações, histórias e fotos para elaboração desse texto

*Créditos: Renato Pereira/SGDP;

Renato Brandão/Feam; Fabiana Moreira/SUCEA; Wanderlene Nacif/DEAMB; Karla

Brandão/SUPPRI; Bruno Malta/ex-servidor do SISEMA

Por Comunicação Sindsema

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